domingo, 6 de abril de 2014

Sobre a incapacidade de seguir adiante

Já não eram mais goles inocentes e reversíveis, era a garrafa inteira. Na verdade, garrafas, que pelas minhas contas eram três, de vinho que ele dizia que era caro com uma certeza de sommelier e me enchia com detalhes que só me faziam ter vontade de engolir aquele líquido como se tivesse sido adquirido em uma mercearia de esquina e custado R$ 3,50. 

Ele falava tanto que não percebia que eu não só estava enchendo a cara, como o saco inteiro com aquele assunto. Afogava toda a dor e tédio naquelas taças bonitas de um vinho que não lembro o gosto nem o nome. E nós não tínhamos ido ali nem para beber e muito menos para falar, mas fizemos os dois com um rigor de forças armadas. Mas era justo, assim como eu não entendia dos vinhos dele, ele não entendia da minha matemática primária, nem das minhas teorias. 

Ele pulou para o jazz, o cinema, o blues, o passado de sonhos fragmentados e todas as possibilidades de sorrisos no futuro. Até que eu já não entendia seus pedidos, suas observações precipitadas e já dançava nua e de olhos fechados pela sala de estar - que tinha um ar explícito de casinha de boneca, mesmo sendo de homem de 1,87m. Eu era apressada demais para a melodia de Astaire e pisava nos meus próprios pés. Abri os olhos, os deles continuaram fechados.

Quando segurou forte a minha mão, eu sabia que aquele seria apenas o primeiro passo para o escuro. Algo em mim suplicava para que não tivesse mais volta. Não voltar era justamente o que eu precisava. E eu queria que aquela noite durasse a vida toda, porque eu sabia que se ela acabasse, involuntariamente e sem direito de defesa ou contestação, eu voltaria para você. Para você que está distante ou sequer existe. 

E é, justamente, por conseguir prever o final que eu sempre impeço os inícios.

sábado, 5 de abril de 2014

Das tentativas

A gente tenta. O pior é que a gente tenta. Mas os disfarces e joguinhos não costumam funcionar por aqui. Caras, performances, bocas e poses ensaiadas são dissolvidas pelo mesmo sorriso bobo e olhar de saudade. É tão claro e direto, que chego a ficar assustada quando você vai embora e tenho que me encarar no espelho sem reconhecer o que fui minutos atrás.

Na medida do possível, a gente vai levando. Eu aqui. Você aí. E a saudade (sempre ela) no meio. Há sempre um pouco de medo e muito de vontade entre nós. Um medo (infantil, quem sabe?) bem sutil, quase imperceptível. E uma vontade (de coisas e tempos que já ocupam um espaço transatlântico) com vocação para hipérbole.

Essa nossa história tão carente de certezas, sempre transbordou de tantas outras coisas. Fatidicamente vivas e explícitas aos nossos olhos. E que fique bem claro: aos nossos e de mais ninguém. É algo sensitivo e instintivo demais para que se possa explicar ou entender.

Sem mais delongas e tentativas vãs, essa é a hora que o silêncio se eterniza. Essas palavras vão ficar pairando no ar como tantas outras. Para que eu possa me sentir à vontade para usar o clássico sutiã preto de renda sob a camiseta velha e voltar à época em que abraços e beijos, compartilhados a muitos quilômetros de distância, eram a forma mais simples de descrever a realidade.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Éssi Dôis

Ontem eu era apenas mais uma nas estatísticas dos que querem muito, mas sentem pouco ou nada. Invariavelmente, tudo era sempre nada. O muito, pouco. O perto, longe. Todos eram um país distante e eu, um idioma estrangeiro.

Tudo queimava, mas nada aquecia. Era quase como o verso dessa música, só que pior, mais chato, entediante e previsível. Todo o resto da música era exatamente igual ao que viria acontecer no dia seguinte, após uma ligação.

Quatervois! Súbito, um desavisado me salva de mim.



“Eu conheci uma guria que eu já conhecia
de outros carnavais com outras fantasias
Ela apareceu, parecia tão sozinha.
Parecia que era minha aquela solidão.”